Primeira chuva do "Equinócio de outono 2016" 13 de Setembro 2016

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A 13 de setembro de 2016, entre aproximadamente as 00 e as 09UTC ocorreu precipitação de uma forma geral sobre Portugal continental, que foi localmente forte nas regiões Norte e Centro e no Alto Alentejo, e que se poderá associar climatologicamente ao equinócio de outono.

 

Figura 2 – Máximos de reflectividade (dBZ) projectados na horizontal do radar de Arouca dia 13 de setembro 06UTC.

A análise das escalas planetária e sinóptica evidenciava a influência de uma onda de pequeno c.d.o. e grande amplitude nos níveis médios e altos em aproximação ao território do continente, a qual induzia entre aproximadamente as 03UTC e as 06/09UTC forçamento dinâmico significativo, essencialmente nas regiões Norte e Centro, associado a advecção positiva de vorticidade entre os níveis dos 300 e 500hPa. No referido período, nos níveis médios e baixos podia identificar-se advecção quente, em particular nos níveis baixos, fator que poderia ter contribuído para destabilizar a camada. No domínio das escalas sub-sinóptica e mesoescala, podia identificar-se a aproximação e passagem de superfície frontal fria de forte atividade, a qual representava uma zona relativamente baroclínica que fazia a transição entre uma massa de ar tropical/equatorial modificado e com valores elevados de TPW (aproximadamente entre 35 e 40mm) e uma massa de ar tropical/polar e com valores baixos de TPW (aproximadamente entre 15 e 20mm). A partir das 09UTC podia inferir-se um vale térmico sobre o território do continente, e advecção fria numa camada relativamente extensa da troposfera, o que se traduzia pela existência de gradientes verticais de temperatura consideráveis em profundidade, embora LCLs relativamente elevados.

Até às 06/09UTC, a advecção quente e húmida nos níveis médios e baixos sugeria perfis verticais saturados numa camada relativamente profunda da troposfera e valores de TPW elevados, da ordem de 40mm, assim como LCLs baixos, abaixo de 200 metros de altitude, embora os valores da CAPE fossem modestos (abaixo de 500 J/Kg). Ainda assim, podia inferir-se uma atmosfera fortemente shearizada nas camadas 0-6Km e 0-1km, essencialmente com shearing, embora com ligeira advecção quente até aproximadamente 1km de altitude.

A interação entre as escalas planetária/sinóptica e as escalas sinóptica/mesoescala sugeria a formação de nebulosidade convectiva quer em ar quente, quer associada à passagem frontal propriamente dita, e na mesoescala/escala local, a coincidência espaço-temporal entre a CAPE e o windshear essencialmente nas regiões Norte e Centro, sugeria a formação de convecção, eventualmente multicelular, de sistemas convectivos quasi-lineares, de mesovórtices e ocorrência de trovoada. O escasso veering na camada 0-1km, poderia inibir a formação supercelular, que seria assim pouco provável. Não obstante, em ar quente, a interação entre a vorticidade horizontal resultante do forte shearing nos níveis baixos e as eventuais updrafts associadas à nebulosidade convectiva poderia estar na base da conversão de vorticidade horizontal em vorticidade vertical em níveis relativamente baixos, situação que é compatível com a formação de mesovórtices. É ainda de referir, a fraquíssima inibição à convecção devida à existência de LCLs muito próximos da superfície, o que associado ao forte shearing nos níveis baixos, poderia permitir a interação entre vorticidades horizontais de sinais opostos e possibilitar uma sucessão de novas updrafts com consequentemente formação de novas células convectivas (potencial para a formação multicelular).

Adicionalmente, do ponto de vista termodinâmico, a existência de gradientes de TetaSw associados à referida zona baroclínica, poderia por si só, em cada nível isobárico/espessura infinitesimal, ser condição necessária para a geração de vorticidade horizontal, que se poderia concetualizar numa camada pouco espessa, centrada em torno desse nível, e em particular nos níveis baixos. Por outro lado, a zona baroclínica constituiu forçamento à ascensão das partículas, em particular em níveis baixos, facto que aliado à vorticidade horizontal, poderia igualmente conduzir à geração de vorticidade vertical, situação que uma vez mais é compatível com a formação de mesovórtices. Por outro lado, sobre a referida zona baroclínica, poderia, de alguma forma, pré-existir vorticidade vertical associada a convergência à superfície, a qual poderia introduzir perturbações num possível sistema convectivo quasi-linear, com a consequente formação de mesovórtices em níveis próximos da superfície. Assim, neste episódio, seria expectável sobre as regiões Norte e Centro, um episódio potencialmente severo, com ocorrência de precipitação localmente forte, trovoadas e eventuais rajadas fortes.

Seria previsível precipitação forte entre 10 e 25mm numa hora e eventualmente rajadas fortes, e trovoadas até às 06/09UTC, essencialmente nas regiões Norte e Centro. De facto, na rede de estações do IPMA, pôde observar-se nas regiões Norte e Centro e na parte norte do distrito de Portalegre, valores de precipitação acumulados numa hora entre 10 e 25mm, e inferir através dos produtos MAX/SRI/RAIN1 do radar de Arouca e de Lisboa, valores compatíveis com o aviso amarelo numa hora (10 a 20 mm), que efetivamente foi emitido.

A partir das 09/12UTC, devido à advecção fria muito significativa em profundidade e ao abaixamento da isotérmica zero, seria previsível a queda de granizo nas regiões Norte e Centro.