Funnel Cloud

Convecção organizada no dia 26 de novembro de 2014
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Com base nas análises das 12 UTC de 26 de novembro do modelo do ECMWF (figura 1a), a situação sinótica é determinada aos 500 hPa por uma depressão centrada a oeste de Portugal Continental e por dois anticiclones, um localizado a oeste do arquipélago dos Açores e outro no Mediterrâneo, o qual se estende em crista em direção à Escandinávia. A parte sudoeste do Continente situa-se no bordo ascendente de um vale depressionário, região tipicamente favorável ao movimento vertical ascendente nos níveis baixos e médios da troposfera, o que é consistente com a existência de valores negativos da velocidade vertical (w) aos 700 hPa (figura 1b).

Confrontando o campo de w (figura 1b) com os campos da pseudo-temperatura potencial do termómetro molhado (TetaSW) aos 850 hPa e da pressão ao nível médio do mar (figura 1c) e também da energia potencial convectiva disponível para a ascensão de uma partícula de ar (CAPE - figura 1d) é possível identificar, na parte leste da depressão à superfície, zonas onde existem simultaneamente movimento vertical ascendente (figura 1b), ar quente e húmido na baixa troposfera (com valores máximos de TetaSW entre 12 e 14 ºC) e instabilidade atmosférica (figura 1d). A existência simultânea de movimento vertical ascendente, ar húmido em níveis baixos e de instabilidade atmosférica favorece a ocorrência de fenómenos convectivos.

Análise 12 de 26-11_2014: Z500Análise 12 de 26-11_2014: W500
Análise 12 de 26-11_2014: TETASW850
Análise 12 de 26-11-2014: CAPE

Figura 1 – Análises das 12 UTC do dia 26 de novembro de 2014 do modelo do ECMWF: (a) Geopotencial (isolinhas em intervalos de 4 damgp - a preto), temperatura (em ºC - a sombreado) e vento (em kt) aos 500hPa; (b) Velocidade vertical aos 700 hPa (Pa s-1); (c) Pseudo-temperatura potencial do termómetro molhado (ºC) aos 850 hPa e pressão ao nível médio do mar (isóbaras em intervalos de 4hPa); (d) CAPE (J/kg).

De acordo com as observações meteorológicas, no período compreendido entre as 12 e as 15 UTC verificou-se um agravamento do estado do tempo principalmente nas regiões do litoral Sul, associado ao desenvolvimento e à adveção de sudoeste de estruturas convectivas.

As previsões para as 15 UTC, derivadas da análise das 12 UTC do modelo, sugerem um agravamento nas regiões antes referidas (figura 2) e, em particular, na zona de Lagoa, onde existem máximos relativos de w (valores entre -2 e -4 Pa s-1(figura 2a)), da convergência de humidade aos 850 hPa (valores entre 0.15 e 0.4 x10-4 g kg-1 s-1(figura 2b)) e de CAPE (valores entre 300 e 500 J/kg (figura 2c)). Por seu lado, o índice Convective Inhibition (CIN) apresenta nesta zona valores de inibição para a ascensão da partícula inferiores a 50 J/kg (figura 2c). De notar que, embora este índice seja definido por uma quantidade positiva, por oposição ao CAPE optou-se por representá-lo graficamente com valores negativo.

Previsão H+3 de 26-11-2014 R12: W850

Previsão H+3 de 26-11-2014 R12: CONV850

Previsão H+3 de 26-11-2014 R12: CAPE + CIN

Figura 2 – Previsões para as 15 UTC a partir da análise das 12 UTC do dia 26 de novembro de 2014 do modelo do ECMWF: (a) Velocidade vertical aos 850 hPa (Pa s-1); Convergência de humidade específica aos 850 hPa (x10-4 g kg-1 s-1); Índices CAPE e CIN (J/kg).

Visto ser necessário existir adicionalmente um quarto mecanismo - o Wind Shear (WS) nas camadas da troposfera - para a formação de convecção mais organizada, a qual poderá originar fenómenos meteorológicos extremos como por exemplo tornados, foram calculados os valores de WS entre a superfície e os níveis de altura de 1 km, 3 km e 6 km para Lagoa (ponto de coordenadas 37.13 N 8.15 W) a partir das previsões para as 15 UTC. Na tentativa de caracterizar  a instabilidade a uma escala mais local próximo da altura da ocorrência, foram também calculados os valores dos índices de estabilidade CAPE, CIN e Lifted Index (LI) para Lagoa (tabela 1).

Tabela 1. Valores de CAPE, CIN, LI e wind shear obtidos para Lagoa (ponto de coordenadas 37.13 N 8.15 W) a partir das previsões para as 15 UTC derivadas da análise das 12 UTC do modelo do ECMWF.

CAPE

337 J/kg

CIN

-4 J/kg

LI

-1.7 ºC

WS superfície-1 km

0.005 s-1

WS superfície- 3 km

0.003 s-1

WS superfície- 6 km

0.003 s-

A comparação dos valores obtidos (tabela 1) com os calculados para um conjunto de 8 situações em que ocorreram um ou vários tornados em Portugal Continental permitiu verificar que se situam dentro do intervalo de valores dessas situações. A informação existente no IPMA (observaçoes, relatos, fotos e vídeo) evidenciam o desenvolvimento de várias circulações turbilhonares do tipo funnel cloud por volta das 16:30 UTC do dia 26 de novembro de 2014 na zona de Lagoa mas não permitem comprovar que alguma dessas circulações tivesse tocado o solo de modo a ser considerada tornado.

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